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Interação com leitores pode significar sobrevivência




A internet possui uma série de canais para que profissionais de comunicação possam interagir com seus leitores. Estamos cercados por ferramentas sociais. Apesar disso, muitos jornalistas e empresas de mídia ainda não conseguem utilizar tais ferramentas para criar um relacionamento verdadeiramente bidirecional com o dito público.

Essa é a opinião do jornalista Mathew Ingram, redator do GigaOm.com – uma das principais redes de blogs de tecnologia nos EUA, com sede em San Francisco, na Califórnia. Ingram é especialista na evolução dos meios de comunicação e, por consequência, aborda tudo que envolve o assunto.

Quando fez parte da equipe do Globe and Mail, um jornal diário nacional com sede em Toronto, no Canadá, Ingram foi o primeiro editor de mídias sociais, que na época era um cargo que visava “facilitar a comunicação entre os leitores e redatores do jornal”.

Hoje, ele questiona se essa comunicação de fato melhorou.

Modelo social multidirecional

Ingram reconhece que o jornalismo e os meios de comunicação foram tomados por inúmeras mudanças de paradigma exatamente por causa da web – e isso incluiu aspectos negativos, como o declínio nas receitas publicitárias, que estão esmagando a imprensa.

Ele diz que isso não é o mais importante (embora não minimize tais problemas) e argumenta que a questão principal na relação jornalismo vs. web pode ser resumida em uma frase de Jay Rosen, escritor e professor de jornalismo na Universidade de Nova York: “O jornalismo deixou de ser um modelo unilateral de transmissão para se tornar um modelo social multidirecional”.

Mas por que os jornalistas e meios de comunicação têm tanta dificuldade para se adaptar a esse novo modelo (ainda que muitos sejam nativos digitais)? Ingram crê que muitos profissionais ainda têm dificuldade para se desapegar da ideia do jornalismo unilateral. Muitos também acabam por desprezar o esforços do jornalismo interativo (como, por exemplo, programas de rádio com participação do ouvinte, entrevistas de rua e o que ele denomina como “a imensa região imaculada conhecida como a área de comentários do blog”).

Sob esse ponto de vista, a onipresença de ferramentas interativas – como Twitter, Facebook, Instagram e a própria web em si – acaba sendo inútil. Ingram diz que, como tais ferramentas acabam se garantindo em sua simples existência, elas nem sempre são utilizadas com seu pleno potencial. “Muitos jornalistas estão convencidos de que postar links para seu conteúdo no Twitter ou Facebook basta. Bem, isso talvez vá resultar em cliques, mas quantos realmente irão usar essas ferramentas de forma verdadeiramente interativa, como parte do jornalismo que realizam?”, questiona.

Mestrado em mídias sociais

Em função dessa deficiência, Ingram se revela totalmente a favor do plano da CUNY (Universidade da Cidade de Nova York): oferecer um curso de mestrado com um ano de duração em “jornalismo em mídias sociais”. A proposta foi apresentada em um post no Medium por Jeff Jarvis, um dos principais pensadores das mudanças que a Web 2.0. proporcionou ao exercício da profissão do jornalista.

Se aprovado, o curso se concentraria em auxiliar jovens profissionais de imprensa a desenvolver as habilidades necessárias para interagir com leitores/telespectadores/ouvintes – e não apenas através de comentários nos blogs ou no Twitter, mas por meio da interação real, visando a melhora do exercício do jornalismo em si.

Todo jornalismo deve ser aberto

Ingram sabe que ainda existe um choque cultural entre as visões tradicionais do jornalismo e a visão 2.0 sempre que a interação com os leitores entra em pauta. Mas também sabe que os motivos do conflito costumam ser mais obscuros do que parecem.

Ele diz que muitos sites que optam por não abrir o espaço de comentários se protegem sob o argumento de que “a maioria dos comentários é terrível, repleto de spams e trolls”. No entanto, as entrelinhas revelam que geralmente os jornalistas estão ocupados demais “fazendo jornalismo” para “perder tempo” falando com seus leitores.

De certa forma, é fácil compreender tal posição. Afinal, “navegar através de centenas de comentários idiotas feitos por pessoas que nem sequer terminaram de ler o post do blog antes de enviar suas ideias parece ser um desperdício de tempo”, não é mesmo? Então, por que se envolver?

“A maior razão para se envolver com os leitores ou o dito público é que esse envolvimento torna seu jornalismo melhor; talvez não imediatamente, e talvez não em todos os casos. Mas, a longo prazo, ouvir os leitores melhora a compreensão do que você está escrevendo”, argumenta Ingram.

Ele também apresenta mais um motivo importante para não abandonar o contato com o receptor de sua mensagem: o crescimento das startups que dependem do crowdfunding para levar seus produtos e serviços ao público. “O jornalismo e a mídia em geral estão se concentrando muito mais na interação pessoa-pessoa, do que na relação pessoa-instituição ou pessoa-marca. Empresas tradicionais de jornalismo como o New York Times ainda têm poder? Claro! Porém, esse poder é muito menor do que antes, ou então colunistas como Nate Silver, Ezra Klein, Kara Swisher e muitos outros não teriam saído do jornal para construir carreiras independentes”.

Ingram diz que, se esse modelo de negócios permanecer, ou seja, se o financiamento feito pelos leitores se tornar o padrão, então relacionar-se com eles deixará de ser apenas uma receita para o bom jornalismo; vai se tornar a receita para a sobrevivência.

FONTE: http://www.observatoriodaimprensa.com.br